A Vida de Shelley, André Maurois

A primeira aparição de Byron não decepcionou os Shelley. A beleza daquele semblante era impressionante. O que chamava a atenção em primeiro lugar era um ar de altivez e de inteligência, em seguida uma palidez de luar, sobre a qual realçavam com um brilho de veludo os grandes olhos animados e sombrios, os cabelos negros um pouco cacheados, a linha perfeita das sobrancelhas. O nariz e o queixo eram de um desenho firme e gracioso. O único defeito daquele belo corpo só aparecia quando ele andava. Coxo, diziam; pé-de-cabra, insinuava Byron, que preferia passar por diabólico a passar por aleijado. Mark notou logo que aquela claudicação lhe dava uma grande timidez; todas as vezes que tinha de dar alguns passos na presença de espectadores, ele lançava uma uma frase satânica. No registro do hotel, sob a rubrica idade, escreveu “cem anos”.
Os dois homens simpatizaram um com outro; Byron encontrava em Shelley um homem de sua classe que, apesar de uma vida difícil, conservava as maneiras encantadoras dos rapazes de bom sangue. A cultura daquele espírito deixou-o admirado; ele próprio lera muito, mas sem aquela extraordinária seriedade. Shelley quisera conhecer, Byron deslumbrar, e Byron sentio-o muito bem. Sentiu igualmente logo que a vontade de Shelley era uma força pura e rígida, ao passo que a sua flutuava ao sabor das suas paixões e de suas amantes.
Shelley, modesto, não percebeu essa admiração, dissimulada por Byron com grande cuidado. Ouvindo o terceiro canto de Childe Harold, ficou comovido e desanimado. Naquela força, naquele ritmo vigoroso, naquele movimento de maré-montante irresistível, reconheceu o gênio e desesperou de o igualar.
Mas se o poeta o impressionou, o homem causou-lhe muita estranheza. Esperava um titã revoltado; deparou com um grande senhor ofendido, muito atento àquelas alegrias e modificações de vaidade que a Shelley pareciam tão pueris. Byron afrontara os preconceitos, mas acreditava neles. Encontrara-os no caminho dos seus desejos e passara por cima deles, mas a contragosto. Shelley agira ingenuamente; ele, conscientemente. Expulso da sociedade, não apreciava senão os sucessos mundanos. Mau marido, só respeitava o amor legítimo. O seu cinismo era de represália, não de convicção. Tentava terrificar a Inglaterra desempenhando um papel audacioso, mas era por desespero de não ter podido conquistá-la num emprego tradicional.

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