O Amanuense Belmiro, Cyro dos Anjos

Não voltarei a Vila Caraíbas. As coisas não estão no espaço; as coisas estão é no tempo. Há nelas ilusória permanência de forma, que esconde uma desagregação constante, ainda que infinitesimal. Mas não me refiro à perda da matéria, no domínio físico, e quero apenas significar que, assim como a matéria se esvai, algo se desprende da coisa, a cada instante: é o espírito cotidiano, que lhe configura a imagem no tempo, pois lhe foge, cada dia, para dar lugar a outro, novo, que dela emerge. Esse espírito sutil representa a coisa, no momento preciso que com ela nos comunicamos. Em vão o procuramos depois; o que, então, se nos depara é totalmente estranho.
Na verdade, as coisas estão no tempo, e o tempo está dentro de nós. A alma das coisas, em certa manhã de maio no ano de 1910, ou em determinada noite primaveril, doce, inesquecível, fugiu nas asas do tempo e só devemos buscá-la na duração do nosso espírito.

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